Consequências socioeconômicas da Selic no mercado de trabalho.

Uma investigação sobre os efeitos distributivos de taxas de juros elevadas no mercado de trabalho, com foco em como a política monetária pode impactar de maneira desigual o emprego e as oportunidades entre trabalhadores.
Autor

Paula Leandra, 5º semestre de economia, e Matheus Teixeira, 5º semestre de economia.

Data de Publicação

16/03/2026

Introdução

Este texto amplia a análise dos efeitos distributivos da taxa Selic para além da rentabilidade financeira e do endividamento, direcionando o foco para o mercado de trabalho. Partindo das discussões desenvolvidas anteriormente (clique aqui para acessar) sobre os mecanismos da política monetária, o objetivo aqui é investigar como seus impactos se distribuem entre os trabalhadores.

No curto prazo, a política monetária conduzida pelo Banco Central do Brasil opera sob um trade-off entre inflação e desemprego: a elevação da Selic pode contribuir para a desaceleração dos preços, mas também tende a reduzir o nível de atividade econômica e a demanda por trabalho. Embora o controle inflacionário gere ganhos de bem-estar no longo prazo, ao preservar o poder de compra e reduzir incertezas, esses custos e benefícios recaem de maneira heterogênea sobre a população.

“Tá, mas e a economia?”

O trade-off entre inflação e desemprego é um conceito macroeconômico chamado Curvas de Phillips. O conceito explica que uma variação do desemprego tem um efeito inverso previsível sobre a inflação, que é válido somente no curto prazo, pois no longo prazo os agentes econômicos ajustam suas expectativas e anulam o efeito da política de expansão no emprego.

A hipótese central deste texto é de que a política monetária afeta os trabalhadores de forma desigual, principalmente trabalhadores cuja renda depende diretamente do nível de atividade econômica. Penalizando de maneira mais intensa determinados grupos no mercado de trabalho quando a taxa de juros é elevada.

Mecanismo

Explicando esse mecanismo: juros mais elevados encarecem o crédito, reduzem o consumo das famílias e desestimulam o investimento produtivo por parte das empresas, resultando em desaceleração da atividade econômica. Esse processo tende a se traduzir em menor geração de empregos e, em muitos casos, aumento do desemprego.

Diante de custos financeiros mais elevados e maior incerteza quanto à demanda futura, as empresas tendem a postergar investimentos e a conter contratações. Em economias caracterizadas por elevada informalidade e fragilidade do mercado de trabalho, os efeitos de uma política monetária contracionista recaem de forma mais intensa sobre trabalhadores de menor renda, que dispõem de menor proteção social e apresentam maior vulnerabilidade a choques econômicos.

Além disso, o aumento do desemprego e a perda de renda associados à desaceleração econômica reduzem o poder de barganha dos trabalhadores, pressionando salários para baixo e ampliando a desigualdade funcional da renda, entendida como a diferença entre a remuneração do trabalho e do capital. Enquanto os rendimentos financeiros se beneficiam diretamente da elevação da taxa de juros, a renda do trabalho tende a ser comprimida, aprofundando o desequilíbrio distributivo.

“Tá, mas e a economia?”:

A desigualdade funcional da renda é a distribuição da riqueza gerada entre os fatores de produção, analisando a porção que vai para o trabalho e o que vai pra o capital. Ou seja, mede se os trabalhadores ganham menos em relação aos proprietários de capital.

Composição do mercado de trabalho:

Para que se entenda como o aumento do desemprego causa elevação ou manutenção da desigualdade social, é necessário que se compreenda a composição do mercado de trabalho. No cenário em que a economia se desacelera, as empresas passam por um processo de decisão, no qual precisam cortar gastos e provavelmente diminuir o plantel de funcionários. Nesse caso, os primeiros funcionários a serem desligados são os mais vulneráveis, como: trabalhadores informais, cargos que não exigem alto grau de escolaridade e cargos de natureza não essencial.

O trabalho informal nos últimos anos ganhou espaço nos debates econômicos e políticos, devido ao aumento de trabalhadores migrando do trabalho formal ao informal. No entanto, trabalhadores informais estão mais suscetíveis ao desemprego, devido à ausência de direitos, entre eles, o aviso prévio e o pagamento de multa rescisória, como é o caso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS. Segundo dados disponibilizados, em 2019, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 50,9% das pessoas sem deficiências trabalhadores estavam empregados em um regime formal, enquanto o mesmo indicador era de 34,9% entre aquelas pessoas com deficiência. Portanto, a retração do mercado de trabalho penaliza os informais, especialmente grupos historicamente vulnerabilizados, como pessoas com deficiência.

Em um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, em 2019, a taxa de desemprego caiu para todos os grupos, exceto para os que estudaram somente até o ensino fundamental. Além disso, o mesmo estudo afirma que o menor grau de escolaridade, além de dificultar a obtenção de um emprego, também aumenta as chances de ser dispensado. Logo, torna-se evidente: cargos que não exigem alto grau de escolaridade são mais vulneráveis, sofrendo maiores impactos em uma economia com elevado nível de desemprego.

Além disso, segundo um estudo realizado, em 2019, pela Organização Internacional do Trabalho - OIT, no Brasil 92,4% das pessoas que atuam como trabalhadoras(es) domésticas(os) são mulheres, sendo 62% mulheres pretas ou pardas. Além disso, o estudo indica que na América Latina e no Caribe 77,5% delas estão na informalidade. Logo, em um cenário de desaceleração da economia, as empregas domésticas (serviço de natureza não essencial) tendem a sofrer com o desemprego, e como visto, o grupo social mais afetado seria as mulheres, especialmente afrodescendentes. ```

Dados

Evidências empíricas indicam que esses efeitos não se distribuem de maneira homogênea entre os diferentes grupos sociais. Resultados obtidos por pesquisadoras da USP mostram que um aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic real está associado a um acréscimo de 1,22 ponto percentual no desemprego de homens negros em relação ao de homens brancos. Esse resultado persiste mesmo após o controle por composição setorial e nível educacional, sugerindo que os impactos negativos de uma política monetária contracionista incidem de forma mais intensa sobre esse grupo específico. 

A hipótese levantada pelas pesquisadoras para explicar esse padrão está relacionada à estrutura do mercado de trabalho brasileiro. O aumento da taxa de juros afeta de maneira mais acentuada setores como a indústria e a construção civil, que, segundo dados do IBGE, concentram uma parcela significativa do emprego de homens negros. Em contraste, grande parte das mulheres negras encontra-se ocupada em setores menos sensíveis às variações da taxa de juros, o que atenua o impacto direto da política monetária sobre seus níveis de emprego.

Em um país marcado por desigualdades estruturais persistentes, como o Brasil, a elevação recorrente da taxa Selic tende a reforçar mecanismos de concentração de renda, ao mesmo tempo, em que intensifica a vulnerabilidade de grupos sociais já historicamente desfavorecidos.

Como visto, a elevação da taxa de juros causa impacto direto no mercado de trabalho, promovendo maior nível de desemprego. Como esse mercado é marcado por desigualdades sociais, especialmente nos cargos mais vulneráveis a demissões, os juros altos acabam por manter e aprofundar as disparidades existentes.

ODS 8 - Trabalho decente e Crescimento Econômico

Esse texto conversa diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, essencialmente a ODS 8 (Trabalho Digno e Crescimento Econômico), promovendo crescimento econômico inclusivo e sustentável somado a um trabalho digno para todos.

Transparência em Uso de IA

Ferramenta: ChatGPT-4. A finalidade do uso: correção de erros gramaticais, ampliação do vocabulário e encontrar fontes complementares. O texto foi revisado posteriormente e a dupla autora é responsável pelo conteúdo final.

Para saber mais

Link da pesquisa citada:https://madeusp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/NPE_33_site.pdf